terça-feira, 15 de outubro de 2013

A VOZ LITERÁRIA DE CIRO JOSÉ TAVARES - BRASILIA/DF


  • Bom dia, professora!

    Neste dia abençoado em que homenageamos os professores trago à publicação o prefácio do livro Álbum de Versos Antigos, de Adelle de Oliveira, escrito por um dos seus alunos mais brilhantes. Além dele sentaram-se nas carteiras do externato da mestra e grande poeta, personalidades como Nilo Pereira e Edgar Barbosa e toda uma geração nos tempos áureos do Ceará - Mirim.

    João Wilson Mendes Melo

    Este livro despertou-me, de início, a saudade de sua doce autora, de quem recebi, na infância dos sete anos, ensinamentos que ainda posso classificar como os primeiros passos na aprendizagem da leitura e da escrita.
    Aquela escola foi o berço oferecido e realmente concedido a recém-nascidos para as primeiras letras e que, sendo transmitidas com amor e a piedade de santa de uma poetisa, poder-se-iam transformar em letras maiúsculas para alguns homens que me enlevam na possibilidade de terem sido meus contemporâneos, ou melhor, por eu ter testemunhado a aprendizagem multiplicadora dos seus talentos e de suas luzes.
    Acontece também que os instrumentos que me eram fornecidos nos estudos, que levam ao conhecimento e à comunicação, teriam uma das suas grandes satisfações na leitura futura da obra literária, daquela que realizava na sala de aula, tão simples e singela, o seu mais belo poema de intenso carinho à infância, para quem recebeu o dom divino de informar e de formar para a vida que se iniciava em cada um dos seus alunos, todos na flor da idade, que era a designação mais singular e autêntica daquele jardim de infância de uma cidade nova que não era capital, mas tinha o título talvez maior de Rainha do Vale.
    Considero-me hoje um privilegiado por haver recebido os primeiros e fundamentais conhecimentos com leite e mel, que naquele Externato Ângelo Varela, daquela Ceará - Mirim dos anos vinte, corriam como sonhados na antiga Terra Prometida.
    Adele de Oliveira, educadora, foi poetisa. E sua forma de dizer era a que melhor havia no tempo em que viveu, de 1884 a 1969. Seu verso predileto – o soneto – usou-o com competência e esmero. Metrificava e rimava como o Parnasianismo recomendava. Não teve o cinzel de Olavo Bilac, Raimundo Correia ou Vicente de Carvalho, nem a inspiração acadêmica que o Romantismo insistiu em viver nela, talvez anacronicamente, e se vestiu à moda reinante porque era mulher e amava. Amava naquele amor que crescia na medida em que não se realizava e terminou imenso, multiplicado no interminável tempo dos que sofrem.
    Seu ambiente de vida: a longa rua em que morava deixava-a no coração da cruz que se formava quando a mesma rua cruzava a linha férrea da Rua Grande. Figurativamente, ela conduzira essa cruz por toda a vida, desde o instante em que o seu grande amor se desfez. Daí em diante somente via encruzilhadas, caminhos que conduziam a nada e que cruzavam com outro igual; via somente o que tortura o caminhante: tempestades, noites escuras sem alvorada.
    Seus motivos de versejar renovavam-se a cada dia, a cada entardecer, a cada anoitecer e recomeçavam pelo outro dia triste que lhe seguia, outra tarde nostálgica, outra noite. Assim viveu anos a fio, décadas seguidas, até que na metade da nona década deixou a vida que a atormentava para receber, certamente, a compensação prometida pelo sofrimento aceito e vivido sem protesto, mas apenas com alguns lamentos.
    Seus versos bem que poderiam ter transmitido as belezas de Ceará Mirim, a bela cidade inclinada em forma de anfiteatro para facilitar a contemplação do vale de umidade refrescante, de um verde que anuncia um trânsito livre para a paz dos pêndulos amarelos, farfalhantes ao vento. Uma mágoa no amor, porém, desviou o foco de suas atenções e de sua inspiração para penumbras, noites prateadas e, quando muito, para alguma manhã radiosa aos olhos dos outros.
    É difícil dizer se foi bom ou ruim para a poesia em si, mas sabemos que foi tormento para a poetisa e foi emoção e beleza tétrica para seus leitores, logo transformados em admiradores incondicionais. Ela soube tirar o mesmo valor dessas outras paisagens e fazer dos raios de luz, surpreendentes e fugazes, um prêmio maior para o bom gosto de dizer e de ouvir. Sua poesia é, pois, um momento que se perpetua; uma decepção que gerou desenganos, tédio, desesperança, referida de relance, algumas vezes, como reação da consciência bem formada ao infortúnio persistente.
    Tudo floriu em versos metrificados, rima clara e sonora, determinando a musicalidade suave da expressão do sentimento poético.
    No seu conjunto há para o leitor atento uma reflexão. A subordinação às regras da poesia antiga, digamos assim para dar a conotação do tempo em que ela brotou, levou sua autora ao uso de termos às vezes não condizentes com sua simplicidade e com a simplicidade do texto, a ponto de se senti-los forçados e um pouco estranhos; já a metrificação faz o uso excessivo do hífen e a maior distinção entre as sílabas normais das palavras e a sílaba do verso. Tudo isso que tira um pouco da espontaneidade, mas considera-se uma prova de habilidade ou maestria provada nesse jogo mais complicado das palavras para revelar bem claro o sentimento que o impulsiona. Nisso ela também foi mestra de real valor.
    Por todos esses méritos sobejamente reconhecidos, saúdo a poetisa Adelle de Oliveira na sua póstuma entrada em forma de livro no mundo das letras, como se fazia antigamente quando ela entrava em classe:
    Todos de pé! Bom dia, professora!
    Se a tarefa de hoje é o seu livro, nós, os solitários sobreviventes do antigo Externato, e a multidão dos novos admiradores, vamos ler os seus versos para aprender mais uma belíssima lição de amor e ternura.

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